quinta-feira, 29 de setembro de 2011

A Vida da Gente

Claudiomiro Machado Ferreira *

C
omo é bom tomar banho pela manhã, ao acordar. Se eu pudesse, sempre faria assim. Na prática, geralmente tomo banho à noite. É uma das últimas atividades do meu dia. Na verdade, se pudesse eu tomaria dois banhos ao dia. Levantaria por volta das nove horas, tomaria um banho, serviria uma xícara de café e, daí sim, começaria a trabalhar. Ao final do dia, que no meu caso termina por volta da meia-noite ou uma hora da manhã, tomaria outro, e deitaria.
Ouvi dizer que brasileiros são criticados por tomarem um banho por dia em países onde a prática do banho diário não é difundida ou adotada. Pior, já ouvi algumas pessoas dizerem de forma imperiosa: “ Em tal país não se toma banho todos os dias.” Como se fosse lei ou ofensa fazê-lo.
Na verdade estamos a todo momento sendo contrariados ou regulados. Colocam-nos horários e regras, códigos e posturas. Querem controlar tudo na vida da gente. Horários, gostos, sentimentos... Já perceberam que quando estamos alegres sempre tem alguém para jogar um balde de água fria em cima? Se estamos tristes sempre tem alguém que diz que não devemos ficar assim. Se gostamos de alguém que não nos corresponde dizem para esquecermos e partir para outra. Parece que é indecente querermos viver o que sentimos, fazer o que queremos na hora em que entendemos que seria mais adequado para nós.
Certa vez me disseram que Fernando Pessoa, o poeta português, teria perguntado por que haveria de ter hora para comer, quando o chamaram para isso. É verdade, por que há hora de comer ou de tomar banho? Nossas necessidades deveriam ser reguladas por nós mesmos. Deveríamos comer a hora que quiséssemos, deitar para dormir quando tivéssemos sono e vestir a roupa que quiséssemos. Chegar a hora que fosse mais conveniente deveria ser uma decisão inteiramente nossa.
Sei que existem prazos e regras sociais. Com certeza seria bem complicado se cada pessoa fizesse o que bem entendesse à hora que quisesse. Mas, vamos combinar, um pouco de desobediência social, parafraseando Thoreau, dá um gostinho melhor à vida, não dá? Principalmente quando percebemos a inveja ou o desejo das outras pessoas que gostariam de fazer, mas não o fazem.
Vá. Liberte-se. Faça amor pela manhã, ao acordar. Tome banho fora de hora. Almoce as três da tarde. Atrase-se. Ofereça uma flor àquela mulher que você admira. Viva um pouco a sua vida do jeito que você quer. Afinal, os dias e os anos passam e a gente quase nem percebe. Como dizia o padre Enrique, meu professor no Seminário Anglicano: O tempo é tirano.
Agora, com licença. Preciso ir. Meu projeto está atrasado. Tenho de pegar meu ônibus. Desde que adotaram o ponto eletrônico no meu trabalho, minha vida passou a ser controlado por ele.


29.09.2011 - RG/RS

* Servidor público. Publicou a tradução História da Liberdade de Pensamento, escreveu Figuras & Vícios de Linguagem e o texto As Bibliotecas Públicas Municipais e a Administração Pública Direta. Ministra palestras e presta consultoria e assessoria na área de Direitos Autorais e Registro de Obras Literárias. Edita o blog http://direitosautoraiseregistrodeobras.blogspot.com