terça-feira, 1 de julho de 2014

Trinta Anos de Querência


Trinta Anos de Querência

Claudiomiro Machado Ferreira

   Q
uem nunca sonhou ser um astro da música? Isso já ocorreu com muitas pessoas e ainda continuará povoando a mente de muitos adolescentes. A maioria não consegue, mas para a nossa compensação pessoal, alguns, sim. Como exemplo temos Ritchie Valens, músico americano descendente de mexicanos, que musicou La Bamba e compôs Donna, e que morreu jovem em um acidente aéreo. Em outro triste acidente também morreram os membros do grupo Mamonas Assassinas, escrachados e divertidos que, querendo ou não, contagiaram a muitos, se não a todo o País em sua época e com suas composições contagiantes. Renato Manfredini Júnior, para nós Renato Russo, sonhava o mesmo sonho em seu quarto, enquanto se recuperava de uma doença que o acometeu quando adolescente. Para o bem da música e para toda uma geração ele se recuperou e produziu clássicos do pop rock nacional. O sonho de ser astro também foi o tema da música Popstar, do grupo João Penca e seus Miquinhos Amestrados.
            Apesar de muitos dos grupos brasileiros terem influência norte-americana, fizeram sua história no cenário musical. Umas mais longas, outras mais curtas. Assim como a trajetória do grupo The Wonders, cuja história é movida pela iniciativa de seu jovem baterista, que impulsionou a banda quando aplicou um ritmo mais acelerado ao que deveria ser uma balada. Esta inusitada interferência permitiu que seu grupo estourasse com That Thing You Do!
            Certa vez, Rogério Flausino, vocalista do Grupo J. Quest, grupo mineiro de Belo Horizonte, falou da dificuldade de ser uma banda que lutava para mostrar seu trabalho fora do eixo Rio-São Paulo. Desenvolvendo suas técnicas e trabalhando continuamente esse grupo conseguiu se firmar no cenário musical nacional e está na ativa a mais de vinte anos. Fugindo da influência norte-americana, o então jovem Paulo Ricardo, futuro vocalista do grupo RPM, acreditava na criação de uma identidade nacional para a música, especialmente ao rock, em uma época em que muito se imitava grupos internacionais, assim como fizeram muitos cantores em épocas anteriores, como Fábio Júnior e outros, inclusive adotando nomes estrangeiros e compondo em inglês, enquanto tentavam impulsionar suas carreiras.
            Com o tempo o valor às raízes brasileiras se fortaleceu e a musicalidade viu nascer muitas produções locais que acreditavam na expressão de sua cultura, como o movimento Mangue Beat, surgido na década de 90, em Recife. A valorização da produção local de sons e expressões musicais também foi explorada por grupos como Titãs e sempre é uma fonte de riqueza que não pode ser desconsiderada. Nesse sentido algumas expressões se firmam por si só, como o fado, estilo eminentemente Português e inimitável, bem como expressões africanas e indígenas, todas muito ricas, locais e que só agregam muito a qualquer composição musical.
            Tratando de um caso mais específico e puxando a brasa para o nosso assado, como diz o ditado rio-grandense, temos o Grupo Querência, que ao contrário da fictícia banda The Wonders, é real em seus sucessos e trajetória. Afinal, não é qualquer grupo que chega aos 30 anos de atuação. O Grupo Querência chegou, e hoje é impossível falar de música tradicionalista gaúcha e traçar um panorama desse estilo musical sem fazer referência a este grupo. Mesmo para um não aficionado ao estilo, é impossível não ter ouvido falar ou escutado algumas de suas interpretações, entre elas Mercedita e Roseira Branca, que bem podem ser consideradas marcas do Rio Grande do Sul, tanto quanto Querência Amada, de Vitor Mateus Teixeira, o Teixeirinha.
            O Grupo Querência, como devem ser todos, demonstra bem o espírito da banda que quer levar a todos o seu trabalho, independente de onde houver público. Exemplo disso foi o show apresentado no dia 28 de junho de 2014, na pequena cidade interiorana de Pedro Osório, e, ao qual, tive a satisfação de prestigiar.
            Querência é um grupo que gosta do que faz e faz brincando, se divertindo e divertindo ao seu público, sem perder o profissionalismo. Esse profissionalismo e a seriedade podem ser notados pela forma que conduzem sua apresentação, pela estrutura que possuem e pelo fato, como já foi dito, de estarem dispostos a se apresentar onde quer que seja.
            Desde o velho ônibus adquirido nos primórdios de sua composição até a diversidade de origens de seus atuais componentes, tudo mostra o valor e garra do grupo e faz aumentar a admiração de quem conhece sua história. A disposição dos integrantes ao fornecer seus autógrafos, mesmo em meio à apresentação, só faz aumentar a simpatia pela qualidade com que primam em se apresentar sem esquecer de dar atenção aos fãs. Atuando desde 1982, desde que surgiu em Pelotas, só fui assisti-los agora, mas espero que outra oportunidade não falte, pela qualidade e prazer que foi assistir sua apresentação e para conseguir o autógrafo do baterista, o único que faltou, ao qual desculpo porque estava em pleno exercício de sua atividade, que desempenhou tão bem quanto os seus colegas.

 Adriano Gross e Claudiomiro Machado Ferreira

 Márcio Miranda, Claudiomiro Machado Ferreira e Santiago Domingues

Grupo Querência (1)- Foto Claudiomiro Machado Ferreira 

Grupo Querência (2)- Foto Claudiomiro Machado Ferreira