terça-feira, 5 de agosto de 2014

Os Pagadores de Dívidas

Os Pagadores de Dívidas[1]

Claudiomiro Machado Ferreira[2]

          O Rio Grande do Sul é um Estado de muitas tradições. Lá, muitas pessoas ainda carregam a cultura do chamado “fio de bigode”. Neste conceito a palavra dada vale mais do que qualquer contrato assinado, mesmo na frente do mais digníssimo magistrado.
          Aconteceu, porém, que como em qualquer outro Estado desse nosso País, sempre há pessoas inteligentes e dispostas a empreender. Na cidade de Rio Grande, que ainda guarda ares de província mesmo tendo sinais de uma metrópole, um pacato livreiro de um recôndito sebo, percebeu uma oportunidade.
          A cada óbito de um de seus mais ou menos assíduos frequentadores outro, ainda vivo, saldava a dívida deixada pelo recém-falecido. A prática começara certa vez, quando o nauseabundo mas atento mercador de livros usados, muito tristonho disparou:
          — Faleceu fulano. - E completou: — Que me deixou uma dívida de tantos reais.
          Após um pesaroso e fúnebre silêncio um grupo resolveu saldar a dívida deixada pelo falecido que morrera. E assim foi. A cada passamento para o andar de cima um ou mais frequentadores daquele templo ao conhecimento, que comumente abrigava a melhor nata dos ébrios  habituais, pagava a dívida de alguém que falecera.
          Porém, decorrido algum tempo da prática, algo estranho começou a chamar a atenção de um ou de outro.  Assim nasceu o assunto, que começou a tomar corpo, à boca pequena, primeiro em pequenos grupos. A situação foi até que chegou ao ponto de alguém perguntar:
          — Vocês perceberam como aumentou a taxa de mortalidade dos frequentadores do Dom Casmurro?
          Alguns ficaram indiferentes, acostumados que estavam a procurar em seus copos as mais profundas verdades da vida, outros estranharam a assertiva e muitos foram como que tomados de assalto. Houve um breve debate sobre a vida e a morte, sobre as condições da saúde no Brasil e até considerações filosóficas sobre a efemeridade da vida humana.
          Porém, um dos frequentadores já indignado e bem acalorado também pelo consumo da marvada disparou assim que o livreiro adentrou o salão e sentou-se para beber junto aos seus colegas:
          — Heraldo, desde há muito tempo alguns de nós tem saldado as dívidas de pessoas que aqui frequentam. Não temos nenhum problema em continuar com essa prática, que para nós já se tornou um compromisso e uma tradição. Já fizemos isso até para pessoas que nem conhecemos. Mas, daqui para frente temos apenas uma exigência. Daqui para frente só pagamos a conta de quem já morreu mediante a apresentação do atestado de óbito, !!!



[1] Texto escrito em homenagem a João Eli, frequentador do Sebo e Café Dom Casmurro, cuja dívida de R$ 15,00 foi paga pelos frequentadores do local.
[2] Escritor e tradutor. Consultor, assessor e palestrante em Propriedade Intelectual - Direito Autoral & Propriedade Industrial. Editor do blog direitosautoraieregistrodeobras.blogspot.com